

MORDIDAS
Surgem as mordidas...
Como podemos entendê-las?
De tempos em tempos, dentro da dinâmica escolar, surge uma preocupação comum entre as famílias: crianças pequenas mordem e outras são mordidas. Sabemos que essa situação gera angústia, preocupação, incômodo e muitas perguntas. Com o objetivo de acolher e esclarecer, compartilhamos este texto para ajudar a compreender por que as mordidas acontecem, em quais contextos elas surgem e qual é a postura da Escola diante dessas situações.
Por que as mordidas acontecem?
Entre 1 e 2 anos, a boca é uma das principais formas de a criança conhecer o mundo. Brinquedos, objetos, alimentos e até as próprias mãos são levados à boca como forma de experimentar sensações. Chupar, morder, sugar, emitir sons e explorar texturas são ações que dão prazer e ajudam na construção da relação com o ambiente. Além disso, os dentes em fase de nascimento podem causar incômodo e coceira na gengiva. Soma-se a isso o fato de que crianças até cerca de 3 anos ainda têm pouco controle dos impulsos e se frustram com facilidade, pois ainda estão aprendendo a lidar com emoções intensas.
É importante também olhar para o contexto de vida da criança. O ingresso na escola representa uma grande mudança: sair de um ambiente familiar e conhecido para outro mais amplo, com novas pessoas, rotinas e regras. Esse processo de adaptação pode gerar ansiedade, insegurança e desconforto, que nem sempre conseguem ser expressos em palavras.
Em quais momentos aparece a mordida?
Nessa faixa etária, compartilhar ainda é um grande desafio. A criança pequena não percebe o outro como alguém diferente de si, mas como alguém que existe em função do seu desejo. Assim, em situações de disputa por brinquedos, espaço ou atenção, surgem conflitos acompanhados de frustração e sensação de perda. Como ainda não conseguem compreender ou elaborar esses sentimentos, agem rapidamente usando o próprio corpo — que é o instrumento que melhor conhecem. A boca, por ser um importante meio de expressão, acaba sendo utilizada, e a mordida acontece.
Em alguns casos, a mordida pode surgir quando a criança está muito cansada, com sono ou sobrecarregada, reagindo ao desconforto de forma impulsiva. Há também mordidas que aparecem como uma tentativa de contato. À medida que as crianças começam a perceber a presença dos colegas e a criar vínculos, é comum observarmos interações intensas: abraços apertados, beijos, empurrões, beliscões e, às vezes, mordidas. Vale lembrar que, muitas vezes, os próprios adultos utilizam pequenas mordidas como forma de carinho, o que também faz parte do repertório observado pelas crianças.Outro aspecto importante é que elas ainda não têm noção real da dor que causam. A reação do colega mordido pode surpreendê-las, e não é raro que fiquem assustadas e chorem junto.
Morder é sinal de agressividade?
Na maioria das vezes, não há intenção de machucar. A criança não planeja a mordida; ela surge como resposta imediata a um desconforto, frustração ou excesso de emoção. Ainda assim, a mordida pode representar uma das primeiras manifestações da agressividade infantil, ligada a sentimentos como raiva, ciúme ou necessidade de afirmação. Como as crianças pequenas ainda não sabem dosar força nem controlar impulsos, essas ações podem assustar os adultos, mesmo fazendo parte de um processo natural de desenvolvimento.
A mordida no processo de desenvolvimento infantil
Podemos compreender a mordida como uma forma inicial de “combate”: a criança usa sua energia interna para tentar conseguir o que deseja ou para se defender. Esse movimento faz parte do crescimento. O papel do adulto é acolher, orientar e ensinar caminhos socialmente aceitos para que a criança possa se expressar. A principal ferramenta nesse processo é a linguagem verbal. Ao nomear sentimentos e oferecer alternativas, ajudamos a criança a avançar no controle emocional e no desenvolvimento da fala. Frases como: “Você ficou bravo porque pegaram seu brinquedo.” “Diga: ‘Agora é a minha vez’.” “Ele ficou triste porque você o mordeu.” Esse aprendizado é gradual e exige tempo. Quanto menos ansiedade os adultos gerarem, mais tranquilamente a criança atravessará essa fase.
Ao mesmo tempo, é fundamental deixar claro que morder não é uma atitude permitida, pois machuca o outro. Quando necessário, o adulto deve intervir de forma firme e respeitosa, explicando que sentir raiva ou querer algo não é errado — o que precisa mudar é a forma de agir.
Como a Escola trabalha essas situações?
Quando as mordidas começam a aparecer, a Escola atua tanto individualmente quanto em grupo. No atendimento individual, observamos as necessidades de cada criança: se há dificuldade de comunicação, de relação, de defesa ou de expressão de sentimentos. Durante a intervenção, damos atenção tanto à criança que foi mordida — oferecendo acolhimento, carinho e segurança — quanto à que mordeu, ajudando-a a encontrar outras maneiras de expressar seu desconforto. Orientações simples e claras são feitas no momento, como: “É melhor dizer ‘eu não gostei’” ou “Agora é a minha vez”.
O adulto tem um papel fundamental como referência e modelo, pois é a partir desse vínculo afetivo que a criança aprende formas mais adequadas de negociar, esperar, pedir e expressar emoções. No trabalho em grupo, observamos como a criança está se adaptando socialmente e propomos atividades que favoreçam a convivência e a consciência corporal. Conversas na roda, brincadeiras coletivas e experiências que ajudem a perceber a força da boca e dos dentes — como morder alimentos mais resistentes — fazem parte das estratégias utilizadas.
O papel das famílias
Sabemos que não é fácil receber a notícia de que o filho foi mordido, nem conviver com marcas visíveis no corpo da criança. Da mesma forma, os pais da criança que mordeu podem se sentir constrangidos ou aflitos. Em ambos os casos, a Escola busca acolher as famílias, explicar o contexto e apoiar todos os envolvidos. Para preservar as crianças, não nomeamos quem mordeu ou quem foi mordido, evitando exposições desnecessárias. Professores e coordenação estão sempre disponíveis para conversar, orientar e acompanhar esse processo junto às famílias.
As mordidas podem acontecer em uma fase específica do desenvolvimento infantil e têm caráter passageiro. Com atenção ao contexto, intervenções adequadas e parceria entre escola e família, ajudamos a criança a encontrar formas mais saudáveis de se expressar e se relacionar.
Esse processo é, acima de tudo, uma oportunidade educativa — para as crianças, para os adultos e para a construção de vínculos baseados no cuidado, no respeito e na compreensão.